Primórdios do Coaching: O Jogo Interior

Um dos maiores livros da literatura esportiva se chama “O Jogo Interior do Tênis”. Seu Autor é Timothy Gallwey, considerado por muitos como um dos pais do Coaching. Apesar de ser um trabalho focado no tênis, o texto traz à tona conceitos e conclusões válidos para qualquer esporte e para muitas atividades do dia a dia.

Trata-se de uma obra com pouco mais de 150 páginas, de linguagem simples, mas que introduziu um dos conceitos mais essenciais, tanto para mundo esportivo quanto para o Coaching: Self 1 e Self 2.

Desempenho Compartilhado

brain-9Segundo Tim Gallwey, todo ser humano é composto por dois lados antagônicos: o Self 1, que representa os aspectos lógicos, objetivos e sistemáticos, e o Self 2, ligado à intuição, subjetividade e criatividade. Em sentido neurológico, isso seria uma personificação de nossa divisão cerebral, com um lado esquerdo representado pelo Self 1 e o lado direito representado pelo Self 2.

Os dois lados coexistem, porém, apresentam dinâmicas bem distintas. O Self 1 possui uma postura centrada e associativa, julgando o tempo inteiro cada evento ocorrido e comparando com fatos (presentes ou passados) para formular uma concepção lógica.  Já o Self 2 é dado a uma postura intuitiva, que busca a eliminação de interferências para que o desempenho no agora seja ótimo.

Quem Manda Aqui?

A grande questão é que, devido aos perfis distintos, o comportamento do Self 1 influencia diretamente no Self 2 e vice-versa, especialmente quando não existe uma distinção clara entre as devidas responsabilidades de cada um. Isso se agrava pelo fato de sermos treinados para priorizar sempre o lado racional.

Nesse contexto, nosso desempenho esportivo possui um caráter intuitivo, ou seja, ele depende predominantemente do Self 2. Dessa forma, nossa “mania” de julgar resultados a todo o momento e sistematizar informação é na verdade uma grande interferência ao alcance dos resultados almejados.

Quer exemplos práticos? Sua pontaria melhora quando você fica pensando “chute certo, chute certo, chute certo”, no futebol? O que acontece com seu desempenho quando você erra uma tarefa no trabalho e se concentra na frustração ou na repreensão que levou? Seus resultados melhoram quando você acerta algo e tenta padronizar suas atitudes, pensando constantemente no que fez anteriormente?

Todos Nascemos Gênios

concentration-s

Resumindo o conceito geral, temos:

Desempenho = Habilidade – Interferências

Boa parte dessas interferências vêm do Self 1 e a única solução é silencia-lo. Não no sentido da meditação, mas se concentrando apenas no que tem de desenvolver, seja uma partida de futebol ou um relatório. Se você focar em seus erros e em “fazer melhor”, tudo o que terá será uma pressão interna por resultados que não pode ser traduzida em atitudes práticas.

Algumas dicas que podem ajudar nesse processo são:

  • Quando aprender uma nova modalidade ou habilidade não assuma as orientações técnicas como regras, mas apenas como sugestões a serem adaptadas à sua fisiologia;
  • Assuma uma postura curiosa sobre os seus erros em qualquer atividade. Ao invés de perder a paciência, tente responder: por que errei a jogada?
  • Observe seus movimentos: utilize um espelho ou peça alguém para observá-lo desenvolvendo suas tarefas e lhe dizer de onde a falha provavelmente vem;
  • Após identificar uma falha em dado processo ou movimento, observe-o, ao invés de se concentrar em corrigi-lo. O ato de simplesmente observar a ação, automaticamente lhe dará a noção da correção necessária;
  • Se concentre em algum aspecto concreto, como em sua respiração, para evitar a dispersão em pensamentos ao longo de uma atividade.

Quer o maior exemplo de aplicação prática do jogo interior? Pense nos bebês: como alguém desenvolve uma capacidade tão complexa quanto a de andar, sem que racionalize o processo? Simples, eles modelam o que veem e através disso, dizem a seus corpos o que fazer. O movimento é então estabelecido de forma natural, já que eles o repetem e praticam até executa-lo sem esforço.

Leave a Reply